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Irã no epicentro de começo de ano sísmico

Por Alexandre Aguiar
Última atualização: 10.01.2020 às 10:03

Dias atrás nos abraçávamos e brindávamos por um 2020 de paz, saúde e prosperidade, mas antes mesmo de o novo ano completar uma semana já éramos todos bombardeados por uma maré de notícias ruins. Irã e Estados Unidos em estado de facto de guerra. Fogo e destruição na Austrália. Pior onda de terremotos em Porto Rico em um século. E ainda um desastre aéreo de um avião ucraniano com 176 pessoas a bordo, justamente no Irã.

A execução do general iraniano Qasem Soleimani, homem forte da Guarda Revolucionária Iraniana em ataque dos Estados Unidos, mudou o panorama já instável do Oriente Médio para pior, acrescentando uma carga enorme de imprevisibilidade. Soleimani era terrorista com alegado envolvimento nos atentados de 1992 e 1994 em Buenos Aires que deixaram 115 mortos e responsável direto pela expansão da influência iraniana em países do Oriente e Médio com conflitos na Síria, Líbano e Iêmen. Treinou milícias iraquianas que resistiram à presença do militar dos Estados Unidos no país e teve papel relevante no desmonte do califado do Estado Islâmico (Daesh). Seu currículo extenso, de herói na guerra Irã-Iraque a homem forte das forças Quds do regime de Teerã, coleciona um número altíssimo de vidas humanas perdidas. Um homem que era amado e odiado na região.

Bush e Obama tiveram a oportunidade de executar Soleimani, mas não levaram adiante a ideia ante os riscos da operação. Sabiam que morto era pior que vivo pela sua relevância na estrutura de poder do Irã e as possíveis repercussões militares e de terrorismo. Não era como matar Osama bin Laden. Era algo muito maior. Significava cortar a "cabeça da serpente" de um país, inimigo e poderoso. Trump não hesitou em ordenar sua execução. Militares apresentaram a alternativa como a última hipótese como resposta a ataques de milícias iraquianas ligadas ao Irã contra objetivos dos Estados Unidos no Iraque. E colocaram como última alternativa justamente para que Trump não a escolhesse, mas para surpresa de expressiva parte do corpo diplomático e dos militares de Washington, o impulsivo Trump escolheu matar Soleimani.

Soleimani era o homem mais poderoso do Irã abaixo do aiatolá. Há margem para debate que fosse até mais poderoso que o presidente iraniano. Era cotado, aliás, para no futuro ser presidente do país. Milhões foram às ruas no Irã para os seus atos fúnebres. Não havia alternativa ao regime de Teerã diante do seu assassinato. Era reagir ou reagir. Para manter a honra do país e não passar aos povo e ao resto do mundo a imagem de acovardamento. O orgulho nacional iraniano fora ferido. E por um inimigo.

O Irã, como por todos esperado, reagiu na terça-feira à noite, lançando duas dezenas de mísseis contra duas bases ocupadas por tropas dos Estados Unidos e ocidentais no Iraque. Os ataques não deixaram baixas. Foi um movimento minuciosamente calculado por Teerã a não ensejar uma resposta militar dos Estados Unidos. Sem apetite para uma guerra que destruiria o país e se alastraria pela região, Teerã fez um ataque modesto que satisfez ao mesmo tempo o desejo popular de uma pronta resposta armada e a necessidade de se evitar uma maior escalada.

Trump que “joga alto” para depois recuar e oferecer diálogo, como fez com a Coréia do Norte ao prometer “fogo e fúria” para depois realizar cúpulas com o ditador asiático, um processo que já fracassou, decidiu não retaliar a ofensiva iraniana e ofereceu diálogo em meio às ameaças. Algo como propor a paz com a arma apontada para a cabeça. Era também esperado, já que, assim como os iranianos, Trump não deseja uma nova guerra que custaria trilhões de dólares aos cofres do contribuinte norte-americano e milhares de vidas de militares, justamente durante uma campanha de reeleição.

O Irã não é o Iraque de Saddam Hussein, com quem os Estados Unidos se envolveram em duas guerras: Golfo (1991) e do Iraque (2003). O poderio militar dos iranianos é bastante superior ao dos iraquianos da época de Saddam. Seu arsenal de mísseis é o maior do Oriente Médio. É potência militar regional ao lado de Israel e Arábia Saudita. E conta com milícias armadas como Hezbolá e Hamás em vários países da região, notadamente no Líbano, Faixa de Gaza (Palestina), Síria, Iraque e Iêmen. É um adversário a ser temido e isso Trump ignorou ao ordenar a morte do general, mas levou em conta ao não reagir com força armada ao ataque iraniano que se seguiu com mísseis.

Agora, que ninguém se engane. A resposta iraniana não vai se esgotar nos poucos mísseis que foram lançados contra bases com norte-americanos no Iraque. Ela pode demorar meses e até anos para vir, mas virá com muito maior violência ou virulência. O regime iraniano tem expertise em operar nas sombras e buscará formas de reação contra alvos dos Estados Unidos ou aliados que possa negar envolvimento, seja por terrorismo ou ações cibernéticas. E ainda há a opção de ataques a navios petroleiros ou o bloqueio do Estreito de Ormuz, gerando um choque no preço do petróleo que, dependendo do momento escolhido, poderia trazer problemas de impopularidade para Trump na sua campanha de reeleição em novembro. A perda do general Soleimani foi muito grande para que a reação se limite ao punhado de mísseis que nenhuma vítima deixaram.

Estados Unidos e Irã vivem em conflito desde a Revolução Iraniana em 1979. Houve em todo este período breves momentos de distensão, como no acordo nuclear (JCPOA) negociado na administração Obama e que agora o país anuncia deixará de cumprir obrigações, e outros de enorme gravidade como a crise dos reféns na embaixada norte-americana que durou 444 dias entre 1979 e 1981, o ataque contra quartéis dos Estados Unidos no Líbano pelo Hezbolá (aliado do Irã) em 1983 com centenas de mortos, e a derrubada de um avião de passageiros iraniano por míssil dos Estados Unidos com 290 mortos em 1988.

Trump agravou sobremaneira este clima de belicosidade entre Estados Unidos e Irã ao deixar o acordo nuclear negociado multilateralmente com Teerã de forma a impedir que o regime iraniano buscasse a bomba atômica. Começou ali uma campanha que é definida como de “máxima pressão” com sanções que levaram a uma crise econômica no Irã. Parte dos iranianos passaram a ir às ruas protestar contra o regime ao mesmo tempo que o país expandia sua presença e confrontação pelo Oriente Médio no Líbano, Síria, Iêmen e Iraque. A instabilidade crescia a cada dia. No ano passado, a mais importante refinaria da Arábia Saudita, aliada do governo norte-americano e país rival do Irã na região, foi atacada pelos iranianos, petroleiros no Golfo Pérsico sofreram ataques ou foram retidos, e no fim de 2019 milícias iranianas no Iraque lançaram ofensiva contra empreiteiros dos Estados Unidos e a embaixada norte-americana em Bagdá. A temperatura da confrontação já estava subindo e foi às alturas na execução do general das forças Quds do Irã.

Donald Trump garante que a sua decisão de matar Soleimani fez do mundo mais seguro e evitou uma guerra, mas não conseguiu convencer até congressistas do seu partido sobre a alegada ameaça iminente que teria justificado a ordem de execução. Um senador republicano disse que o briefing de inteligência que recebeu da administração Trump foi o pior em todos os anos em que está como senador. A realidade é que, ao contrário do dito pelo presidente dos Estados Unidos, o mundo está menos seguro a partir desta crise e Washington corre o sério risco de ver Irã, Rússia e China, todos adversários geopolíticos, com influência ainda mais aumentada no Oriente Médio.

E o Irã, que esperava amealhar alguma simpatia internacional, viu os seus esforços de propaganda desabarem durante a quinta-feira com a notícia que o desastre do avião ucraniano, logo após decolar de Teerã na noite dos ataques contra o Iraque, teria sido provocado por um erro da sua defesa antiaérea que teria abatido a aeronave civil por engano. Suprema e trágica ironia, já que somente 48 horas antes, o presidente do Irã tinha lembrado do voo comercial 655 da Iran Air derrubado também por engano pelos norte-americanos em 1988 com quase 300 mortos.

No Oriente Médio, a história se repete sempre como tragédia e o 2020 que começou tenso promete ser um ano de ainda maior confrontação com possíveis repercussões geopolíticas por muitos e muitos anos. A guerra não foi evitada. Foi apenas adiada.

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