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Notícias | Região Entrevista

Collor, um sobrevivente entre os ex-presidentes

De todos que ocuparam o cargo e estão vivos, ele é o único ainda com mandato e, em meio à pandemia, tem feito sucesso nas redes sociais

Por João Víctor Torres
Publicado em: 01.08.2020 às 05:00 Última atualização: 01.08.2020 às 10:07

Wiedthauger e Winck presentearam Collor Foto: Arquivo pessoal/Wiliam Winck
Fernando Collor de Mello, 70 anos, é figura marcante da história brasileira que, inclusive, tem laços com o Vale do Sinos. Mesmo tendo renunciado ao cargo mais importante da República há 28 anos, Collor é o único ex-presidente que ainda permanece com mandato, já que está desde 2007 no Senado.

O político ocupou as funções mais importantes na estrutura pública do País, pois também foi governador, prefeito e deputado. Ou seja, conhece como poucos os meandros e as armadilhas do poder. Dono de uma invejável oratória, o septuagenário tem colhido frutos de um sucesso até certo ponto inesperado nas redes sociais, pelo menos é o que ele mesmo relata.

Desde o início da pandemia, Collor tem ganhado seguidores, especialmente no Twitter, pelas respostas engraçadinhas e ao comentar temas do cotidiano, além de recuperar questões do passado. O senador jura que ele mesmo faz as publicações.

À vontade no universo digital, ressalta que a presença na Internet deve levar em consideração um importante componente. "Se você não tiver bom humor, não participe. As redes sociais não podem ser um ringue de MMA", afirma, em entrevista exclusiva ao ABC.

E a pandemia

Sem fugir das perguntas, avaliou de forma negativa a condução do presidente Jair Bolsonaro perante a crise sanitária causada pela Covid-19 no Brasil. Para ele, o atual mandatário não seguiu os exemplos das nações que conseguiram achatar a curva de contágio e óbitos. Ao mesmo tempo, não enxerga em Bolsonaro um papel conciliatório para coordenar ao lado de prefeitos, governadores e das autoridades de saúde pública o enfrentamento à pandemia. Segundo Collor, Bolsonaro "não vem fazendo nem uma coisa, nem outra."

O ex-presidente pontua a desobediência às normas de isolamento. "Quando a Organização Mundial de Saúde, representando todo o mundo científico e acadêmico, recomenda o distanciamento social horizontal, ele recomenda que seja feito vertical, somente com o grupo de risco. Quando recomendam que não haja participação em aglomeração, ele participa de aglomeração", sublinha, ao destacar que depois de enfrentar o vírus espera que o presidente mude de postura. Se a liderança do País estivesse sob suas mãos agora, Collor diz que buscaria aglutinar forças para diminuir a desinformação, o que, na sua opinião, auxiliaria a frear a evolução do número de casos e mortes.

Em paralelo também é categórico ao dizer que a Covid vem "devastando a economia" e vê "consequências extremamente graves" pela frente. Como saída, relata que investimentos públicos e privados em obras públicas serão fundamentais para retomada do emprego e da renda à população.

As lembranças da cidade em homenagem ao avô

Município com 5 mil habitantes, a cidade de Lindolfo Collor, que foi batizada com este nome numa homenagem ao avô do ex-presidente, tem o apreço do senador. "Destinei recursos a Lindolfo Collor para melhoramentos na cidade", afirma Collor ao revelar, ainda, que já visitou a localidade. Conhecida como a terra dos tapetes de couro, foi presenteado com uma bela peça que, atualmente, tem lugar de destaque na Casa da Dinda, onde reside em Brasília. "Tenho muito carinho pela cidade e espero que ela prospere e possa se tornar um município importante", relata. O ex-prefeito Wiliam Winck - que sofreu, curiosamente, processo de impeachment no final do ano passado - visitou Collor duas vezes na capital federal, uma delas com o vereador Alcirio Wiedthauger. Além disso, cita as semelhanças entre eles. "Acho que nós temos muito em comum, porque ambos passamos por injustiças. Ele, na época de presidente, e eu, enquanto prefeito", frisa. "É uma figura muito culta, educada e dentro do gabinete dele em Brasília tem uma bandeira da cidade de Lindolfo Collor", acrescenta Winck.

Agora não é hora de pensar em impeachment

A queda de um presidente sempre é traumática. Collor viveu na pele as duas faces dessa moeda. No exercício do cargo, viu o governo implodir. Já em 2016, como senador, votou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. No início da pandemia, um dos temas que permeavam o cenário nacional era o eventual processo de impedimento contra Bolsonaro. Atos pró e contra o governo se insurgiram, mas, com o passar do tempo, perderam força. Para Collor, ocorreu um movimento de mão dupla. "A sociedade brasileira se convenceu que o grande inimigo que temos a combater é a Covid-19. Falar em impeachment num momento como esse é apenas aumentar o nível de confusão, indecisão e sobretudo de falta de perspectivas futuras para o Brasil. Esse não é o momento de impeachment", afirma. Combinado a isso, Bolsonaro se desarmou e recuou. "Nas últimas quatro semanas, o presidente mudou seu comportamento e se manteve numa posição de neutralidade, levantou a bandeira branca aos demais poderes, especialmente o Judiciário e o Legislativo, com quem ele vinha mantendo uma relação bastante conflituosa", analisa. Ainda dentro disso, Collor não considera que exista embasamento para o afastamento. "Não vejo até o momento nenhum motivo maior, um crime de responsabilidade, para pensarmos nisso", complementa.

As razões para a queda e o conflito com Itamar

Foi na década de 1980 que o então governador de Alagoas, que nasceu no Rio de Janeiro e construiu a carreira política no Nordeste, ganhou projeção nacional por sua luta contra os privilégios. Ficou conhecido como o caçador de marajás. A partir disso, turbinou a candidatura à presidência numa fase delicada do País. A disputa ocorreu com 22 postulantes ao cargo e Collor saiu vitorioso do pleito. Nas urnas derrotou Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Mário Covas, Ulysses Guimarães e até o folclórico Eneas Cardoso. Com o triunfo, tornou-se o mais jovem presidente das Américas, aos 41 anos de idade.

Só que nem tudo foram flores. O governo durou apenas pouco mais de dois anos e afirma que o vice Itamar Franco conspirou pelo impeachment. Após 28 anos, de forma muito serena, elenca qual foi o motivo principal que sacramentou a queda. "O equívoco que cometi foi não ter dado atenção à construção de uma maioria parlamentar no Congresso Nacional e a falta dela, sem dúvida nenhuma, fez com que eu acabasse sendo afastado", afirma. "O impeachment, todos nós sabemos, não é um instrumento jurídico colocado dentro do texto constitucional. Ele é um instrumento político", acrescenta.

Apesar dos problemas de relacionamento com Itamar, afirma não guardar mágoas, mas relata que o mineiro conspirou para assumir a presidência. "Era uma pessoa muito difícil, temperamento muito irascível. Desde o início do governo, ele começou a demonstrar inquietação de estar naquela posição de vice-presidente", destaca Collor. As desavenças foram crescendo especialmente em função das medidas implementadas pelo governo, mas que haviam sido construídas em conjunto durante a campanha. "E um período adiante (Itamar) começou a conspirar contra a minha pessoa, contra o meu exercício da presidência, e ele trabalhou junto com essa maioria que se formou no Congresso, ele trabalhou junto para que eu fosse afastado", segue. Depois disso, foram se reencontrar e conversar apenas em 2011, quando Itamar assumiu o cargo de senador.

Após 30 anos desta que foi uma das maiores polêmicas do governo, Collor pediu desculpas à população pelo Twitter por bloquear as contas de poupança e demais ativos financeiros. Porém, reforçou que antes já tinha feito esta mesma manifestação de solidariedade aos atingidos, mas pela força das redes sociais pareceu ter ocorrido pela primeira vez. "Não havia outra solução", destaca ao sustentar a necessidade da medida.

 

"Lindolfo é uma referência na política", diz o neto

O ex-presidente tem forte ligação com a região, em especial o Vale do Sinos. Afinal, é neto do leopoldense Lindolfo Collor. "Lindolfo participou da Revolução de 1930 com Getúlio, foi ele que redigiu o manifesto da Aliança Liberal", relembra. Entre os pontos reivindicados pelo movimento da época, Collor cita como bandeiras a igualdade de gênero e tantos outros. "Foi o manifesto no qual todos que participaram da Revolução de 1930 mostravam à população o que ela pretendia fazer, tem a questão do voto da mulher, da criação dos sindicatos e a liberdade sindical e fazer com que as relações trabalhistas deixassem de ser consideradas como casos de polícia", exemplifica. Além disso, o avô foi o primeiro ministro do Trabalho do País e responsável pela criação da primeira legislação trabalhista. "Esse compromisso com os direitos dos trabalhadores veio passando de geração para geração. E eu assumi essa bandeira com muita satisfação. Para mim, Lindolfo Collor é uma referência na política que procuro não desmerecer", diz o neto, Fernando.

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