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Notícias | Região Escassez

Comitê Gravataí quer abrir a caixa preta do abastecimento público pela Corsan

Reunião do comitê, na tarde desta terça (14), discute a capacidade do Rio Gravataí de sustentar as cidades. Corsan garante que não está no limite da captação, mas números de disponibilidade e demanda de água são mistério para o colegiado

Por Eduardo Torres
Última atualização: 15.01.2020 às 13:55

O Rio Gravataí abastece mais de 600 mil habitantes da região Foto: Fernando Lopes/GES
Enquanto torcer pela bondade de São Pedro parece uma aliança prudente contra uma possível crise no abastecimento de água neste período de escassez no Rio Gravataí, na tarde desta terça (14), o Comitê de Gerenciamento da Bacia do Gravataí propõe abrir o que considera uma caixa-preta da Corsan em relação à demanda e à disponibilidade de água para suprir as necessidades do abastecimento público nas cidades da região.

O Rio Gravataí hoje abastece pelo menos 614,3 mil pessoas (parte de Gravataí, Alvorada, Viamão e Glorinha) e, conforme a companhia, são retirados em média 179,7 milhões de litros de água por dia para o abastecimento deste público. Se forem retirados os 21% apontados pela Corsan como perdas de água ao longo da rede, e outros 9% destinados à indústria, em média, cada morador abastecido pelo Rio Gravataí teria disponíveis 201 litros de água por dia. Um índice acima da média nacional, de 154 litros, e quase o dobro dos 110 litros recomendáveis pela ONU.

"Estamos vivendo um período de crise, e o que queremos colocar em debate é se o rio está preparado, e se ele dá conta, do crescimento urbano e industrial, com instalações de novos loteamentos e a expansão das cidades. Queremos que a disponibilidade de água seja um critério determinante no planejamento urbano. É isso o que a legislação ambiental prevê, mas muitas vezes não percebemos na prática", aponta o presidente do comitê, Marthin Zang.

A tendência é de aumento da demanda urbana, uma vez que Gravataí cresce justamente na região atualmente abastecida pelo Rio Gravataí, no eixo do centro em direção às RSs-030 e 020. A Corsan assegura, porém, que não está no limite do fornecimento de água, e aponta que, "quando há aprovação de loteamentos, extensão de rede ou outro acréscimo de consumo, o volume de água necessário já está previsto na produção ou para ser produzido, com base nas outorgas já existentes".

O problema, que leva ao risco de racionamento com o baixo volume de chuvas neste período, salienta a Corsan em um alerta no seu site, estaria no consumo excessivo, e não na incapacidade de atender à demanda no período de verão.

Se for considerado o volume de água informado à reportagem como o captado e distribuído diariamente pela companhia, atualmente, entre as captações de Gravataí, Alvorada, Glorinha e do Arroio Fiúza, em Viamão, a Corsan ainda teria uma margem de 25% de crescimento na retirada de água do Rio Gravataí, conforme a outorga de 224 milhões de litros por dia, em média, que lhe foi concedida para os pontos de captação no rio.

Pelo volume informado pela companhia, captação atual ainda está 25% abaixo do máximo permitido Foto: Fernando Lopes/GES

A caixa preta

Todos estes números fornecidos pela Corsan à reportagem, no entanto, nunca foram informados oficialmente ao Comitê Gravataí, que é o órgão colegiado responsável por manter o equilíbrio nos usos da água do Gravataí. E isso contraria uma resolução do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CRH), de 2018, que determinava à Corsan a divulgação anual para o Comitê da distribuição mensal de volumes de água por tipo de consumidor, desde o abastecimento público, a indústria até os serviços públicos.

"A nossa proposta é revisarmos inclusive os critérios para determinar o nível de alerta do Rio Gravataí, sempre priorizando o abastecimento público e buscando o equilíbrio entre os diversos usos da água na bacia hidrográfica. Se não temos os dados claros de algum desses setores, só um acaba cedendo", alerta Zang.

Atualmente, quando o rio chega a 1 metro na régua da estação de captação da Corsan em Alvorada, é considerado em nível de alerta. E aí, param as bombas de captação para a agricultura.

"Neste verão, já tivemos demonstrações de que este nível, medido por Alvorada, talvez não seja o adequado. A régua ainda marcava 1,22 lá, e em Gravataí, a Corsan estava com dificuldades para o abastecimento público na semana passada. É preciso clareza em todos os dados para que a política de gerenciamento da água seja a mais adequada", salienta o presidente do comitê.

Corsan estima perdas de até 21% da água desde o tratamento até o consumidor Foto: Divulgação/Corsan

O desperdício antes da torneira

A resolução do CRH de 2018 limita em 15% o índice de perdas de água tratada por parte da empresa distribuidora. Quando o volume for superior, o CRH determina que a companhia apresente um plano de minimização do desperdício.

Com um índice de pelo menos 21% de perdas físicas, a assessoria de imprensa da Corsan informa que estão em execução nove projetos estratégicos que visam reduzir as perdas, tais como a implantação de Centros de Controle Operacional (CCOs), melhorias na hidrometração e um contrato de performance que busca trabalhar com redução de pressões, pesquisa de vazamentos, substituições de redes, setorização, dentre outras ações. O plano, conforme o comitê, nunca foi apresentado.

A ideia, a partir da reunião desta terça, é abrir o debate que aconteceu há mais de uma década em relação aos arrozeiros também no planejamento urbano da bacia do Gravataí.

"É uma questão básica, de sabermos o quanto temos de água e qual a verdadeira demanda de cada setor", resume.

Ainda em janeiro, o CRH também discutirá possíveis novos critérios para o controle da vazão e do uso do Rio Gravataí.

Cachoeirinha quer explicações

Depois de mais de uma semana de falta de água quase constante na região do loteamento Chico Mendes, em Cachoeirinha, nesta segunda (13), a prefeitura notificou oficialmente a Corsan para que apresente uma solução ao abastecimento público na cidade. Em sua resposta, a companhia justificou a falta de água ao excesso de ligações irregulares naquela região. Seriam, segundo a Corsan, somente 18 ligações regulares entre 425 casos do bairro.

Além do Chico Mendes, mais de 40 localidades entre Gravataí e Cachoeirinha sofreram com a falta de água no começo da semana. Parte da rede havia rompido e a companhia assegurava ter normalizado os serviços na manhã desta terça (14).

Pela lógica dos números fornecidos pela Corsan à reportagem, não deveria faltar água nesta região. É que Cachoeirinha e parte de Gravataí já não são abastecidas pelo Rio Gravataí, em tese. A água distribuída nesta região vem do ponto de coleta da Corsan no Arroio das Garças, em Canoas. Neste ponto, são distribuídos 86,4 milhões de litros de água por dia para atender a uma demanda de 271 mil habitantes. Considerando as perdas, cada morador receberia, em média, 223 litros de água por dia.

O Arroio das Garças é um dos braços do Rio Jacuí, mas nem sempre foi assim. Até meados do século passado, o arroio era parte da foz do Rio Gravataí, que tinha um caminho bem mais sinuoso até chegar ao Guaíba. O seu curso foi alterado, passando a desaguar diretamente no Guaíba para facilitar a navegação e, por consequência, acelerar a perda de água nos períodos de estiagem.

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